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Querida Igreja, Saiba Por Que Realmente Estamos Te Deixando…

Carta de um pastor à sua igreja se passando por alguém que quer sair:

Estar do out­ro lado do Êxo­do é hor­rív­el, não é? Eu vejo pâni­co em seu ros­to, igre­ja.

Eu sei do ter­ror inter­no que cresce em você à medi­da em que vê as estatís­ti­cas, ouve as histórias e exam­i­na as pesquisas de saí­da.

Eu te vejo deses­per­ada­mente se atra­pal­han­do para faz­er o con­t­role de danos com os que ficaram, e ten­tan­do fab­ricar paixão com uma fé que só encol­he, e eu quero te aju­dar.

Você pode achar que sabe a razão de as pes­soas estarem te deixan­do, mas eu não acho que você sai­ba.

Você acha que é porque a “cul­tura” está tão per­di­da, tão per­ver­sa, tão além do lim­ite que está fazen­do todos irem emb­o­ra.

Você acred­i­ta que a razão prin­ci­pal dessa evasão é que eles fecharam seus ouvi­dos para a voz de Deus; bus­can­do din­heiro, sexo e coisas mate­ri­ais.

Talvez você até ache que os gays, os Muçul­manos, os Ateís­tas e as estre­las pops escul­ham­baram tan­to a moral­i­dade do mun­do que as pes­soas estão aban­do­nan­do a fé aos montes.

Mas estas não são as razões pelas quais as pes­soas estão te deixan­do.

Elas não são o prob­le­ma, Igre­ja.

Você é o prob­le­ma.

Deixe-me elab­o­rar em cin­co questões…

1 — Seus cul­tos se tornaram ralos.

O púl­pi­to orna­men­ta­do, as luzes, a equipe de lou­vor, o novo pro­je­tor de vídeo, tudo isso se tornou um ruí­do para aque­les que real­mente estão ten­tan­do encon­trar Deus. Eles até agradam e dis­traem por uma hora, mas pos­suem tão pou­ca relevân­cia na vida diária das pes­soas que elas estão zarpan­do.

Claro, as músi­cas são lin­das e o pro­gra­ma é óti­mo, mas ulti­ma­mente o Sábado/Domingo de man­hã não está fazen­do mui­ta difer­ença na Terça a tarde ou na quin­ta a noite, quan­do as pes­soas estão lutan­do com o desas­tre, com a bagunça e com as dores adquiri­das nas trincheiras da vida; nos lugares onde uma bela dox­olo­gia não aju­da.

Nós podemos ser entreti­dos em qual­quer out­ro lugar, inclu­sive com mais qual­i­dade. Até que você nos dê algo mais do que uma peça teatral de temáti­ca cristã, algo que nos pro­por­cione espaço e fôlego e rela­ciona­men­tos e diál­o­gos, muitos de nós ire­mos per­manecer aqui fora.

2 — Você está usan­do uma lín­gua estrangeira.

Igre­ja, você fala e fala e fala, mas está usan­do uma lín­gua mor­ta. Você se ape­ga a palavras empoeiradas que não pos­suem ressonân­cia nos ouvi­dos das pes­soas, sem perce­ber que ape­nas falar essas palavras mais alto não é a respos­ta. Todas as expressões e palavras-chave que fun­cionavam 20 anos atrás não fun­cionam mais.

Essa lin­guagem inter­na espir­i­tu­al­iza­da pode te dar cer­to con­for­to em um mun­do que está mudan­do, mas este é um pen­sa­men­to egoís­ta e ape­nas man­tém as pes­soas a uma cer­ta dis­tân­cia. Elas pre­cisam te ouvir em uma lin­guagem que pos­sam enten­der. Existe uma men­sagem que vale a pena ser com­par­til­ha­da, mas é difí­cil ouvir no meio te tan­ta pirotec­nia ver­bal.

As pes­soas não pre­cisam ser deslum­bradas com algo grande, palavras igre­jeiras, painéis escat­ológi­cos e sis­temas teológi­cos com­pli­ca­dos. Fale com elas de for­ma clara e abun­dante sobre amor, ale­gria, perdão, morte, paz, Deus, e elas ouvirão. Man­ten­ha o dis­cur­so inter­no e em breve as palavras ecoaram em um pré­dio vazio.

3 — Sua visão não vai além das pare­des.

Os ban­cos con­fortáveis, o equipa­men­to de últi­ma ger­ação, o novo sis­tema de ven­ti­lação e a ala infan­til são top de lin­ha… e caros. Na ver­dade, a maior parte do seu tem­po, din­heiro e ener­gia parece ser atrair as pes­soas para onde você está ao invés de alcançá-las onde elas já estão.

Ao invés de sim­ples­mente cam­in­har na viz­in­hança ao seu redor e se asso­ciar às coisas mar­avil­hosas que já estão acon­te­cen­do, e as coisas belas que Deus já está fazen­do, você parece sat­is­fei­ta em anun­ciar a fran­quia da sua mar­ca par­tic­u­lar de Jesus, e esper­ar que o mun­do pecador bata em sua por­ta.

Você quer alcançar as pes­soas que estão per­di­das? Saia do pré­dio.

4 — Você escol­he batal­has pobres.

Nós sabe­mos que você gos­ta de lutar, Igre­ja. Isso é óbvio.

Quan­do você quer, você vai pra guer­ra com artil­haria pesa­da. O prob­le­ma é que suas batal­has são mal dire­cionadas. Protesto con­tra fast-food, real­i­ty-show, pia­da ruim sobre o cris­tian­is­mo na tv. Tudo isso pode ger­ar um alvoroço no Face­book e no Twit­ter do lado de den­tro, para os já con­ven­ci­dos, mas são ape­nas fogo de pal­ha para os que estão aqui fora com sangue nas botas.

Todos os dias vemos um mun­do sufo­ca­do pela pobreza, racis­mo, vio­lên­cia, intol­erân­cia e ódio; e em face dessas questões, você fica estran­hamente, assus­ta­do­ra­mente cal­a­da. Nós gostaríamos que você fos­se mais cora­josa nes­sas batal­has, pois assim, teríamos praz­er em ir à guer­ra com você.

Igre­ja, nós pre­cisamos que você pare de ser guer­ril­heira con­tra o triv­ial e indifer­ente quan­to ao ter­rív­el.

5 — Seu amor não parece amor.

Amor parece ser uma grande questão para você, Igre­ja, mas não sabe­mos onde ele vai parar quan­do a coisa fica mais séria. Na ver­dade, mais e mais, esse slo­gan de amor parece incriv­el­mente sele­ti­vo e defin­i­ti­va­mente estre­ito; fil­tran­do toda a gen­tal­ha cristã, que infe­liz­mente parece incluir demasi­a­dos de nós.

Sin­ce­ra­mente? Parece uma dessas pro­pa­gan­das enganosas com letrin­ha miú­das no can­to baixo da TV. Anun­ci­am uma fes­ta do tipo “Ven­ha como estás”, mas fazem questão de deixar claro que uma vez que ten­hamos chega­do à por­ta, não podemos real­mente entrar como esta­mos. Nós vemos um Jesus na Bíblia que anda­va com a gen­tal­ha da sociedade, pros­ti­tu­tas e tra­paceiros, e os ama­va ali mes­mo, mas essa não parece ser a sua con­cepção de amor, não é?

Igre­ja, você con­segue nos amar se não preencher­mos todos os req­ui­si­tos doutrinários e não tiver­mos nos­sa teolo­gia toda desven­da­da ain­da?

Você con­segue nos amar se xin­gar­mos, beber­mos, faz­er­mos tat­u­a­gens, ou Deus nos livre, ouvir­mos rock? Não acho que con­sigam.

Você con­segue nos amar mes­mo que não saibamos ao cer­to como definir amor, casa­men­to, céu, infer­no? Não parece.

Do que sabe­mos sobre Jesus, acred­i­ta­mos que ele se pareça com o amor. O grande infortúnio, é que você não se parece muito com Ele.

Essa é uma parte da razão pela qual as pes­soas estão te deixan­do, Igre­ja.

Estas palavras podem te deixar muito, mas muito zan­ga­da, e talvez você rev­ide dan­do um con­tragolpe na jugu­lar para se defend­er, ou talvez ataque estas declar­ações lin­ha por lin­ha, mas nós gostaríamos muito que você não fizesse isso.

Nós gostaríamos que você se sen­tasse em silên­cio com essas palavras por um tem­po, porque quer você acred­ite que elas estão cer­tas ou erradas, é isso que esta­mos sentin­do, e essa é toda a questão.

Nós somos os que esta­mos sain­do.

Quer­e­mos impor­tar para você.

Quer­e­mos que você nos ouça antes de debater conosco.

Nos mostre que seu amor e seu Deus são reais.

Igre­ja, nos dê uma razão pra ficar.

Não sou eu, é você.” Parece que é isso que você está dizen­do, Igre­ja.

Estou ten­tan­do abrir meu coração com você. O meu e o de mil­hares e mil­hares de pes­soas iguais a mim que estão indo emb­o­ra. Tudo isso para você saber do dano que você está nos cau­san­do e do doloroso lega­do que está deixan­do, e aparente­mente, o prob­le­ma não é você.

O que na ver­dade não deixa de ser um prob­le­ma.

Eu prostrei min­has frus­trações em seu inte­ri­or, em sua retóri­ca reli­giosa, e você me respon­deu com um cor­ta e cola de pas­sagens aleatórias das Escrit­uras, insistin­do que o prob­le­ma real é ape­nas ignorân­cia bíbli­ca, sug­erindo que eu só pre­ciso me arrepen­der e com­prar uma Con­cordân­cia, seja lá o que for isso.

Eu te deix­ei saber o quão jul­ga­do e ridic­u­lar­iza­do eu me sin­to quan­do estou com você, o quão deses­per­a­do e caí­do eu me sin­to no inte­ri­or de sua comu­nidade, e você prossegue me dizen­do o quão per­di­do eu estou, o quão per­di­da­mente apaixon­a­do pelo meu peca­do eu devo estar para te deixar, me lem­bran­do, na saí­da, que eu nun­ca per­ten­ci a você de qual­quer for­ma.

Em face de qual­quer recla­mação e mágoa, você deixou claro que o real moti­vo é que eu sou pecador, imoral, heréti­co, tolo, das trevas, egoís­ta, con­sum­ista ou sim­ples­mente igno­rante.

E para falar a ver­dade, na maio­r­ia dos dias eu nem dis­cor­do de você nesse aspec­to.

Talvez você este­ja cer­ta, Igre­ja.

Talvez eu seja o prob­le­ma.

Talvez seja eu, mas eu é tudo o que sou capaz de ser neste momen­to, e é aqui que eu tin­ha esper­anças que você pudesse me encon­trar.

É aqui, em meu fal­ho, bagunça­do, feri­do, choca­do, duvi­doso, desilu­di­do e ameaçador mun­do que eu esper­a­va que você pudesse me encon­trar com esse supos­to e auda­cioso amor de Jesus que eu tan­to ouvi falar.

Igre­ja, eu sei o quan­to você despreza a palavra Tol­erân­cia, mas neste momen­to, eu real­mente pre­ciso que você me tol­ere, que você tol­ere aque­les de nós que, por qual­quer que seja a razão e que você ache injus­ti­ficáv­el, estão lutan­do para ficar.

Esta­mos tão cansa­dos de nos sen­tir­mos como se fos­se­mos ape­nas uma agen­da reli­giosa; um argu­men­to a ser gan­ho; um pon­to a deixar claro; uma causa a defend­er; uma alma pra con­quis­tar.

Nós quer­e­mos ser mais do que uma estrela na sua coroa; um número no seu relatório de batismos.

Nós pre­cisamos ser mais do que respostas a ape­los, que são aplau­di­dos no altar, e então esque­ci­dos quan­do a músi­ca aca­ba.

Esta­mos oran­do para que você pare de nos doutri­nar, de nos jul­gar, de nos con­denar, de diag­nos­ticar nos­sos peca­dos, ape­nas tem­po sufi­ciente para nos ouvir…

… mes­mo que nós sejamos o prob­le­ma.

Mes­mo se for­mos a mul­her em adultério, ou o seguidor em dúvi­da, ou o pródi­go rebelde, ou o jovem ende­mon­in­hado, pois não con­seguimos ser out­ra coisa neste momen­to. E é neste momen­to que pre­cisamos de uma igre­ja que seja grande o sufi­ciente, firme o sufi­ciente, amorosa o sufi­ciente, não ape­nas para nós como poder­e­mos vir a ser um dia, mas para nós como somos, ago­ra.

Ain­da acred­i­ta­mos que Deus é grande o sufi­ciente, firme o sufi­ciente, amoroso o sufi­ciente, mes­mo que você não seja, e é por isso que mes­mo que este­jamos te deixan­do, não sig­nifi­ca que esta­mos aban­do­nan­do nos­sa fé; é só que nesse momen­to, a fé parece mais alcançáv­el em out­ro lugar.

Eu sei que você vai argu­men­tar que está fazen­do todas essas coisas e dizen­do todas essas coisas porque você nos ama e se impor­ta conosco, mas do lado de cá, você pre­cisa saber que se parece menos com amor e pre­ocu­pação e mais com dis­tân­cia e silên­cio.

Se alguém está frustra­do, diz­er a ele que é erra­do estar frustra­do é, bem, muito frus­trante.

Ape­nas gera dis­tân­cia.

Se alguém com­par­til­ha que seu coração está feri­do, ele não quer ouvir que não tem o dire­ito de estar feri­do.

É uma que­bra no diál­o­go.

Se alguém te diz que está fam­into por com­paixão, rela­ciona­men­to e aut­en­ti­ci­dade, a últi­ma coisa que ele pre­cisa é ser cen­sura­do por estar com fome.

É um chute no tra­seiro enquan­to sai pela por­ta.

Por­tan­to sim, Igre­ja, mes­mo que você este­ja cer­ta, mes­mo que este­jamos total­mente erra­dos, mes­mo que sejamos todos mesquin­hos, auto-cen­tra­dos, hipócritas, críti­cos, e devo diz­er pecadores, nós ain­da somos aque­les que estão procu­ran­do por um lugar onde pos­samos per­tencer e ser­mos con­heci­dos; um lugar onde Deus habite, e só você pode nos mostrar isso.

Mes­mo que o prob­le­ma seja eu, sou eu quem você pre­cisa alcançar, Igre­ja.

Então, pelo amor de Deus, me alcance!

John Pavlovitz
johnpavlovitz.com
tradução livre: Cristãos Cansados

 

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