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O Romanismo Aqui Dentro

É claro que o Protes­tantismo foi for­ma­do como um protesto con­tra o Catoli­cis­mo e o “Papa­do”, uma palavra que se ref­ere à posição de autori­dade abso­lu­ta sus­ten­ta­da pelo papa. E a recente pos­tu­ra do Papa Fran­cis­co nos chama para um exame ren­o­va­do do protesto lança­do por Lutero e pelos refor­madores antes e depois dele.

Mas primeiro eu quero tirar nos­sa atenção do papa­do lá fora para nos con­duzir a um olhar sobre o papa­do aqui den­tro – den­tro de nós mes­mos e den­tro de nos­sa ama­da igre­ja. Emb­o­ra o papa­do insti­tu­cional­iza­do nos prov­i­den­cie uma ilusão de justiça própria muito con­vin­cente que nos apon­ta para longe de nós mes­mos e esta­b­elece a local­iza­ção do peri­go como existin­do exclu­si­va­mente lá fora, não é de for­ma algu­ma seguro faz­er isso. Nos­so maior peri­go reside em assumir que Roman­is­mo é mera­mente aque­la grande insti­tu­ição políti­co-reli­giosa local­iza­da no Vat­i­cano.

NÃO É!

Antes de qual­quer coisa, Roman­is­mo é a religião da natureza humana – natureza humana em ger­al, a sua e a min­ha incluí­da. O próprio grande protes­tante, Mar­t­in­ho Lutero, de for­ma esclare­ce­do­ra obser­vou, “Eu ten­ho mais medo de meu próprio coração do que do papa e seus cardeais. Eu ten­ho den­tro de mim o grande papa, o EU.” O papa­do é sim­ples­mente uma man­i­fes­tação cor­po­ra­ti­va de uma incli­nação humana uni­ver­sal de exal­tar o EU no lugar de Deus, de jus­ti­ficar o EU ao invés de des­cansar na Graça jus­ti­fi­cado­ra de Deus, e de con­tro­lar nos­sos com­pan­heiros humanos através de táti­cas de coerção emo­cional ao invés de garan­tir a liber­dade de con­sciên­cia.

Onde quer que o espíri­to de dom­i­nação seja empre­ga­do – seja por um mari­do ou esposa em um casa­men­to, ou por um líder de uma con­gre­gação local ou con­fer­ên­cia – ali o princí­pio que abastece o papa­do é exer­ci­do.

Onde quer que as pes­soas sejam ensi­nadas a esper­ar o favor de Deus em tro­ca de qual­quer coisa que eles pos­sam faz­er – legal­is­mo, seja em sua for­ma lib­er­al ou sua for­ma con­ser­vado­ra – ali habi­ta o fal­so retra­to de Deus que define a dout­ri­na papal.

Onde quer que os mem­bros de igre­ja busquem resolver as difer­enças por meio de pro­nun­ci­a­men­tos autoritários ao invés de uma respeitosa e racional dis­cussão bíbli­ca, ali é man­i­fes­ta­do o espíri­to que atua no Roman­is­mo.

SEGUINDO OS PASSOS DE ROMA

Ellen White enten­deu que, “Temos mais a temer de den­tro do que de fora. Os empecil­hos para a força e o suces­so são muito maiores vin­dos da própria igre­ja do que do mun­do” (Review and Her­ald, March 22, 1887). O que quer que o papa­do este­ja tra­man­do, a questão mais cru­cial é, O que nós mes­mos esta­mos tra­man­do em nos­sos rela­ciona­men­tos uns com os out­ros em nos­sos lares, igre­jas e con­fer­ên­cias?

Ela escreveu as palavras aci­ma em 1887. Um ano mais tarde, o medo que ela expres­sou se mate­ri­al­i­zou na Con­fer­ên­cia Ger­al de Mineápo­lis em 1888, um even­to extrema­mente sig­ni­fica­ti­vo na história Adven­tista.

Talvez um pouco de pano de fun­do seja necessário.

Cru­cial­mente sobre 1888, “Muitos (Adven­tis­tas) perder­am Jesus de vista. Eles pre­cisam ter seus olhos dire­ciona­dos para Sua div­ina pes­soa, Seus méri­tos, e Seu imutáv­el amor pela família humana” (Teste­munhos para Min­istros, p. 91–92). O prin­ci­pal con­teú­do e tom da pre­gação adven­tista era tal que a igre­ja havia rece­bido a rep­utação “de que os Adven­tis­tas do Séti­mo Dia só falam da lei, e da lei, mas não creem ou acred­i­tam em Cristo” (ibid).

Para reme­di­ar a situ­ação, Deus envi­ou dois home­ns para lev­an­tar Jesus diante da lid­er­ança da igre­ja. Muitos dos Adven­tis­tas que leem esse arti­go estão famil­iar­iza­dos com o fato de que em 1888, A. T. Jones e E. J. Wag­goner, sob div­ina unção, pre­garam as boas novas da jus­ti­fi­cação pela fé para a lid­er­ança da igre­ja na sessão da Con­fer­ên­cia Ger­al daque­le, hoje, infame ano.

Tam­bém esta­mos fre­quente­mente cientes de que a men­sagem foi rejeita­da por líderes impor­tantes, incluin­do o Pres­i­dente da Con­fer­ên­cia Ger­al, G. I. But­ler, e o edi­tor da Review, Uri­ah Smith. Mas o que muitos de nós não sabe­mos, é por que muitos líderes da igre­ja acharam a men­sagem da jus­ti­fi­cação pela fé tão indi­ges­ta. Na car­ta a seguir para líderes das igre­jas Adven­tis­tas e pas­tores em 1895, Ellen White vai ao cerne da questão:

O espíri­to de domínio está se esten­den­do até aos pres­i­dentes de nos­sas Asso­ci­ações. Se um homem ansioso de exercer seus próprios poderes procu­ra ter domínio sobre seus irmãos, achan­do que foi investi­do de autori­dade para faz­er de sua von­tade o poder dom­i­nante, o mel­hor e úni­co rumo seguro é removê-lo, para que não haja mal maior e ele per­ca sua própria alma e pon­ha em peri­go a alma de out­ros. “Todos vós sois irmãos.” A dis­posição de man­dar sobre a her­ança de Deus causará reação, a menos que ess­es home­ns mudem de ati­tude. Os que têm autori­dade devem man­i­fes­tar o espíri­to de Cristo. Devem lidar como Ele lidaria com cada caso que requer atenção. Devem ir pos­suí­dos do Espíri­to San­to. A posição de um homem não o tor­na um jota ou um til maior à vista de Deus; é só o caráter que Deus toma em con­sid­er­ação.

A bon­dade, a mis­er­icór­dia e o amor de Deus foram por Cristo procla­ma­dos a Moisés. Esse era o caráter de Deus. Quan­do os home­ns que pro­fes­sam servir a Deus Lhe igno­ram o caráter pater­nal e se apartam da hon­ra e da justiça ao lidar com seus semel­hantes, Satanás exul­ta, pois ele lhes inspirou seus atrib­u­tos. Estão seguin­do no rumo do roman­is­mo.

Aque­les a quem se orde­na rep­re­sen­tar os atrib­u­tos do caráter do Sen­hor saem da platafor­ma bíbli­ca, e em seu próprio juí­zo humano inven­tam regras e res­oluções para forçar a von­tade de out­ros. Os inven­tos para forçar os home­ns a seguir as pre­scrições de out­ros home­ns, estão insti­tuin­do uma ordem de coisas que anu­la a sim­pa­tia e a ter­na com­paixão; que cega os olhos para a mis­er­icór­dia, a justiça e o amor de Deus. A influên­cia moral e a respon­s­abil­i­dade pes­soal são pisadas a pés.

A justiça de Cristo pela fé tem sido pas­sa­da por alto por alguns; pois é con­trária ao seu espíri­to e a toda a exper­iên­cia de sua vida. Gov­ernar, gov­ernar, tem sido sua ati­tude. Satanás tem tido a opor­tu­nidade de se faz­er rep­re­sen­tar. Quan­do alguém que pro­fes­sa ser rep­re­sen­tante de Cristo se dá a um tra­to áspero, e a impelir home­ns a situ­ações difí­ceis, os que assim são oprim­i­dos, ou romperão todos os gril­hões da restrição, ou serão lev­a­dos a con­sid­er­ar a Deus como um duro Sen­hor. Ali­men­tam maus sen­ti­men­tos con­tra Deus, e a alma dEle se aliena, jus­ta­mente como Satanás plane­jou que fos­se”. (Teste­munhos para Min­istros, p. 362–363).

Alguns pon­tos aqui mere­cem ser enfa­ti­za­dos:

  1. Os líderes de igre­jas que man­i­fes­tam um “espíri­to de dom­i­nação” devem ser removi­dos de seus car­gos.
  2. A posição de um homem (pas­tor, pres­i­dente de cam­po, ou mes­mo o pres­i­dente da con­fer­ên­cia ger­al) não o tor­na maior aos olhos de Deus do que qual­quer out­ro mem­bro da igre­ja. Somente o caráter pos­sui val­or para Deus.
  3. Líderes da igre­ja que “inven­tam regras e res­oluções para forçar a von­tade de out­ros” estão “seguin­do no rumo do roman­is­mo.” As ati­tudes e táti­cas com que os seres humanos lidam com out­ros seres humanos quan­do estão em posição de autori­dade rev­e­lam se eles estão sob a influên­cia lib­er­ta­do­ra do Evan­gel­ho de Cristo ou sob a opres­si­va influên­cia dos princí­pios do papa­do.
  4. Quan­do seres humanos, espe­cial­mente aque­les em posição de lid­er­ança na igre­ja de Deus, ten­tam gov­ernar sobre seus irmãos, Satanás está rep­re­sen­tan­do a si mes­mo nes­sas pes­soas e o caráter de Deus está sendo detur­pa­do.
  5. E final­mente, em sequen­cia à Con­fer­ên­cia Ger­al de 1888, a men­sagem da jus­ti­fi­cação pela fé foi igno­ra­da por alguns líderes da igre­ja, pois era con­trário ao seu espíri­to de “gov­ernar, gov­ernar”. Jus­ti­fi­cação pela fé é incon­gru­ente com um espíri­to que dese­ja reinar sobre out­ros, e ver­e­mos por que esse é o caso na medi­da em que con­tin­u­amos.

TALVEZ TENHAMOS MENOS A DIZER SOBRE ROMA

Um ano depois, em 1896, Ellen White fez uma ousa­da con­statação para os Adven­tis­tas proces­sarem, dado nos­sa tendên­cia em focar no papa­do como nos­so maior peri­go:

Há neces­si­dade de mais ínti­mo estu­do da Palavra de Deus; espe­cial­mente devem Daniel e Apoc­alipse mere­cer a atenção como nun­ca dantes na história de nos­sa obra. Podemos ter menos a diz­er em alguns sen­ti­dos quan­to ao poder romano e ao papa­do, mas deve­mos chamar atenção para o que os pro­fe­tas e após­to­los têm escrito sob a inspi­ração do San­to Espíri­to de Deus; de tal modo tem o Espíri­to San­to molda­do as questões tan­to no dar a pro­fe­cia como nos acon­tec­i­men­tos descritos, que ensi­na que o agente humano deve ser con­ser­va­do fora de vista, escon­di­do em Cristo, e que o Sen­hor Deus dos Céus e Sua lei devem ser exal­ta­dos.” (Teste­munhos para Min­istros, p. 112).

Por favor, não per­ca de vista o que ela está dizen­do aqui. É cru­cial. Ela esta­va dis­cernin­do e sug­erindo que um aten­to estu­do da Palavra de Deus, espe­cial­mente as pro­fe­cias de Daniel e Apoc­alipse, podem levar os Adven­tis­tas a focarem menos sua atenção no papa­do em par­tic­u­lar e mais no peri­go exis­tente den­tro do agente humano em ger­al. Essa citação está em har­mo­nia com seus escritos ante­ri­ores, que chamam nos­sa atenção para o fato de que aqui­lo que vemos no papa­do é um espíri­to de dom­i­nação e exal­tação própria que todos nós esta­mos sujeitos, e que é tão propen­so a se man­i­fes­tar em nos­sa igre­ja quan­to em qual­quer out­ro lugar.

E isso é pre­cisa­mente o que encon­tramos quan­do estu­damos as Palavras de Deus mais aten­ta­mente, espe­cial­mente as pro­fe­cias de Daniel e Apoc­alipse. Desco­b­ri­mos que “o homem do peca­do (o papa­do)… que se opõe e exal­ta a si mes­mo aci­ma de tudo que se chama Deus” (2 Tes­sa­loni­cens­es 2:2–4), é sim­ples­mente uma man­i­fes­tação cor­po­ra­ti­va ou insti­tu­cional da incli­nação que reside em todo coração humano, de brin­car de ser Deus e de usurpar Seu papel em lidar com nos­sos irmãos humanos, com ati­tudes de supe­ri­or­i­dade e táti­cas de pressão, domínio e con­t­role.

Sete anos depois, em 1903, ela com­preen­de­ria ain­da mais clara­mente onde esta­va ten­tan­do chegar com suas con­statações de 1895 3 1896:

O estu­dante deve apren­der a ver a Palavra como um todo, e bem assim a relação de suas partes. Deve obter con­hec­i­men­to de seu grandioso tema cen­tral, do propósi­to orig­i­nal de Deus em relação a este mun­do, da origem do grande con­fli­to, e da obra da redenção. Deve com­preen­der a natureza dos dois princí­pios que con­ten­dem pela suprema­cia, e apren­der a delin­ear sua oper­ação através dos relatos da História e da pro­fe­cia, até à grande con­sumação. Deve enx­er­gar como este con­fli­to pen­e­tra em todos os aspec­tos da exper­iên­cia humana; como em cada ato de sua vida ele próprio rev­ela um ou out­ro daque­les dois princí­pios antagôni­cos; e como, quer queira quer não, ele está mes­mo ago­ra a decidir de que lado do con­fli­to estará.” (Edu­cação, p. 190).

Esta é uma des­ti­lação tão sur­preen­den­te­mente per­spi­caz acer­ca do que real­mente está acon­te­cen­do na história humana como é rev­e­la­da na pro­fe­cia Bíbli­ca. O Grande Con­fli­to não é mera­mente uma batal­ha super­fi­cial entre cor­po­rações reli­giosas em oposição, mas entre “dois princí­pios que estão em con­ten­da pela suprema­cia” em cada vida indi­vid­ual, em cada casa, e em cada igre­ja.

Ess­es dois princí­pios opos­tos são amor e egoís­mo, humil­dade e orgul­ho, liber­dade e coerção, a uti­liza­ção do respeito e a garan­tia da liber­dade ver­sus a incli­nação para a pressão, manip­u­lação, domínio e con­t­role de out­ros. Sim, exis­tem insti­tu­ições políti­cas e reli­giosas que oper­am pelos princí­pios da dom­i­nação e nós defin­i­ti­va­mente pre­cisamos estar aten­tos aos peri­gos ofer­e­ci­dos por ess­es poderes monop­o­lizadores. Mas ain­da mais impor­tante, cada um de nós é propen­so a faz­er o mes­mo ao cri­ar­mos nos­sos pequenos reina­dos papais: em nos­sas casas, em nos­sas igre­jas, em nos­sos asso­ci­ações, em nos­sas con­fer­ên­cias, na for­ma como trata­mos as pes­soas, espe­cial­mente quan­do ocu­pamos posições de lid­er­ança sobre elas. Cada um de nós “em cada ato de nos­sas vidas”  rev­ela “um ou o out­ro de dois princí­pios antagôni­cos.”

Por­tan­to, esse é o con­tex­to da con­statação provoca­ti­va de Ellen White de que “poder­e­mos ter menos a falar acer­ca do papa­do.” Claro, e acer­tada­mente, ela con­tin­ua a chamar atenção às ameaças à liber­dade reli­giosa através do papa­do, assim como deve­mos nós. Mas ela tam­bém nos con­duz a sobri­a­mente con­sid­er­ar o pro­fun­do e mais pes­soal peri­go que existe em nos­sos próprios corações e que pode achar hor­ren­da man­i­fes­tação em nos­sa própria igre­ja declar­ada­mente Protes­tante.

Paulo expli­ca que “a mente car­nal é inimi­ga de Deus; pois não é sujeita­da à lei de Deus, e nem pode ser” (Romanos 8:7). Mais tarde em Romanos 13:10 ele nos infor­ma que a lei de Deus é o amor, o que sig­nifi­ca estar cen­tral­iza­do no out­ro. Aqui Paulo nos apre­sen­ta uma gigan­tesca rev­e­lação do que está acon­te­cen­do na natureza humana: nós esta­mos fun­da­men­tal­mente em oposição ao amor, e expo­nen­cial­mente con­tra ser­mos o segun­do para qual­quer um. Por natureza, o EU é nos­sa supre­ma moti­vação. Por­tan­to, quan­do o EU percebe algum tipo de ameaça, o impul­so nat­ur­al é de sac­ri­ficar out­ros pela preser­vação do nos­so EU. Essa é o tene­broso e dia­bóli­co seg­re­do que espre­i­ta cada coração humano.

Sendo assim, quan­do seres humanos, guia­dos por seus instin­tos car­nais, cri­am uma religião e se unem para praticar essa religião, ela nat­u­ral­mente tomará a for­ma de um sis­tema que exal­ta o EU humano em lugar de Deus (papa­do) e ofer­ece sal­vação humana por meio de rit­u­ais e práti­cas de jus­ti­fi­cação própria (sal­vação pelas obras). E é isso que o papa­do é. É obra pri­ma de exal­tação própria e jus­ti­fi­cação própria que o nos­so mun­do caí­do pro­duz­iu – dis­farça­do de igre­ja de Deus. Podemos ver, então, que os princí­pios do papa­do per­me­iam a natureza humana e são propen­sos a per­me­ar qual­quer igre­ja, a menos que sejam especi­fi­ca­mente iden­ti­fi­ca­dos e repeli­dos por uma bem defini­da dout­ri­na de jus­ti­fi­cação pela fé!

A VERDADEIRA TERCEIRA MENSAGEM ANGÉLICA

Ago­ra começamos a enten­der onde Ellen White esta­va ten­tan­do chegar quan­do disse que “jus­ti­fi­cação pela fé… é a ver­dadeira ter­ceira men­sagem angéli­ca” (Evan­ge­lis­mo, p. 190). Muitos de nós olhamos para esta con­statação e não enten­demos. É um mis­tério para nós porque não se alin­ha com nos­sa estru­tu­ra teológ­i­ca bási­ca nem com nos­sa abor­dagem evan­gelís­ti­ca. A ter­ceira men­sagem angéli­ca (ver Apoc­alipse 14:9–12), nós racioci­namos, é um avi­so con­tra o papa­do forçan­do a mar­ca da besta sobre a humanidade. Como extrair jus­ti­fi­cação pela fé dis­so? Nós até cri­amos o trági­co hábito evan­gelís­ti­co de apre­sen­tar a “mar­ca da besta” com lit­eral­mente nen­hu­ma menção à jus­ti­fi­cação pela fé, e então, vive­mos sob a trág­i­ca ilusão de que temos pre­ga­do a ter­ceira men­sagem angéli­ca.

Mas sejamos claros sobre isso: pre­gar a mar­ca da besta sem comu­nicar a jus­ti­fi­cação pela fé como a questão vital em sua essên­cia, de for­ma algu­ma equiv­ale a pre­gar a ter­ceira men­sagem angéli­ca. Ape­nas iden­ti­ficar o papa­do como “a besta” e a imposição do Domin­go como “a mar­ca da besta” não é a ter­ceira men­sagem angéli­ca. De fato, ao faz­er­mos isso nós prej­u­dicamos nos­sos ouvintes e lhes causamos o dano espir­i­tu­al de con­fir­mar suas incli­nações nat­u­rais de iden­ti­ficar o peri­go como mera­mente lá fora naque­le grande, mal­va­do sis­tema bes­tial ao invés de em seus próprios corações. Ao invés de imer­gir na graça sal­vado­ra de Deus e de sus­peitar do próprio EU, nos­sa assim chama­da pre­gação da ter­ceira men­sagem angéli­ca mera­mente dá ao povo uma fal­sa con­fi­ança no EU e uma descon­fi­ança nos out­ros.

Por­tan­to, em que sen­ti­do a jus­ti­fi­cação pela fé con­sti­tui “a ver­dadeira ter­ceira men­sagem angéli­ca?”.

Vamos que­brá-la em cin­co pon­tos mais sim­ples extraí­dos dire­ta­mente de Apoc­alipse 13 e 14:

  1. A Besta do Mar de Apoc­alipse 13 é o sis­tema papal, de fato, mas é ape­nas o sis­tema papal como – não per­ca esse pon­to – como uma cor­po­ração, uma expressão orga­ni­za­da do princí­pio EU COMO CENTRO que reside debaixo da super­fí­cie da natureza humana caí­da em ger­al. Em out­ras palavras, o princí­pio EU COMO CENTRO é a religião da natureza humana, e o Catoli­cis­mo é ape­nas a maior e mais dom­i­nante man­i­fes­tação mundi­al desse impul­so reli­gioso caí­do. De acor­do com Daniel 7 e Apoc­alipse 13, as car­ac­terís­ti­cas proem­i­nentes do sis­tema papal são estes: (a) um sis­tema mer­itório de justificação/salvação por atos humanos entregues a Deus em tro­ca de seu favor e (b) o uso de táti­cas coer­ci­vas em nome de Cristo. Onde quer que ess­es dois fatores este­jam pre­sentes, ali o espíri­to do papa­do gov­er­na.
  2. A Besta da Ter­ra, entran­do na cena após os 1260 do reina­do de ter­ror do papa­do, é nada mais do que a Améri­ca Protes­tante com seu jeito úni­co de gov­ernar, sua Con­sti­tu­ição, que enal­tece com a lei duas ver­dades vitais do Evan­gel­ho: (a) que todos os seres humanos são cri­a­dos iguais, logo desafian­do o dire­ito dos home­ns, sejam papas ou reis, de dom­i­nar seus com­pan­heiros humanos, e (b) que todos os seres humanos são cri­a­dos orig­i­nal­mente livres, por­tan­to garan­ti­n­do a liber­dade de con­sciên­cia como o úni­co esta­do do ser em que a ver­dadeira ado­ração a Deus pode ocor­rer.
  3. Apoc­alipse 13 então, nos infor­ma que o exper­i­men­to Amer­i­cano de liber­dade seria even­tual­mente sobre­pu­ja­do. A Améri­ca Protes­tante (a Besta da Ter­ra) iria enal­te­cer leis que vio­lar­i­am a liber­dade de con­sciên­cia (fazen­do uma imagem para a Besta do Mar) e então se tornar­ia a máquina políti­ca facil­i­ta­do­ra que traria sobre o mun­do uma crise de con­sciên­cia indi­vid­ual e de caráter. Ênfase: uma crise de con­sciên­cia indi­vid­ual e de caráter. Pressões seri­am cri­adas para serem impostas sobre a humanidade (con­troles de com­pra e ven­da e então o decre­to de morte) que con­duzirão cada pes­soa na ter­ra a atu­arem de acor­do com sua visão de Deus e a man­i­festarem o tipo de espíri­to que atua neles. Durante a crise final, cada pes­soa na ter­ra se moverá em uma de duas direções: (a) a de sac­ri­ficar o EU pela preser­vação da liber­dade de todos os out­ros ou (b) se alin­har com a nova máquina coerci­ti­va recon­sti­tuí­da do papa­do em um esforço de preser­var o EU à cus­ta de out­ros. O ver­dadeiro con­teú­do de cada coração vira à tona sob a pressão man­i­fes­ta na crise da mar­ca da besta.
  4. O povo que per­manecer firme em fidel­i­dade a Deus con­tra o sis­tema da besta é especi­fi­ca­mente descrito como aque­les que vence­r­am “pelo sangue do Cordeiro e pala palavra do teste­munho que der­am, e diante da morte não ama­ram a própria vida (Apoc­alipse 12:11), e como aque­les que “guardam os man­da­men­tos de Deus e a fé de Jesus” (Apoc­alipse 14:12). Para colo­car de out­ra for­ma, a imagem que eles pos­suem de Deus está fun­da­men­ta­da em um tipo de amor que se man­i­fes­ta em sac­ri­fí­cio próprio, rev­e­la­do em Cristo no Calvário, pro­duzin­do neles vol­un­tari­a­mente uma har­mo­nia com a lei de Deus moti­va­da pela fé: ou seja, jus­ti­fi­cação pela fé. Por­tan­to, a visão panorâmi­ca de sua teolo­gia sobre Deus e sua exper­iên­cia com esse Deus os con­duz a abrirem mão de suas vidas, se pre­ciso for, para preser­var a liber­dade de con­sciên­cia para todos. Para estes, o EU é secundário em relação ao out­ro, taman­ho é o amor que eles viram e rece­ber­am em Cristo.
  5. Por­tan­to, o que Ellen White esta­va dizen­do quan­do bril­hante­mente con­sta­tou que a “jus­ti­fi­cação pela fé é a ver­dadeira ter­ceira men­sagem angéli­ca” é que a mar­ca da besta virá sobre o mun­do como a imposição de uma religião basea­da nas obras, cen­tral­iza­da no EU, vio­lado­ra de liber­dades e basea­da em uma dout­ri­na fal­sa do caráter de Deus, por out­ro lado, a teolo­gia e exper­iên­cia daque­les em oposição à mar­ca da besta os con­duzirá a agir por causa que eles sabem que o favor de Deus não é merecív­el e que Sua lei não é impos­ta. Em out­ras palavras, eles enten­derão que a coerção mata o amor e que a jus­ti­fi­cação pela fé é intrin­se­ca­mente interli­ga­da com a liber­dade de con­sciên­cia.

É por isso que Ellen White nos exor­ta para que a jus­ti­fi­cação pela fé seja pre­ga­da com poder e clareza den­tro do Adven­tismo, bem como para todo o mun­do. Ela é a úni­ca men­sagem que pode preparar os seres humanos para a crise da mar­ca da besta. Todos que pos­suem uma imagem de Deus basea­da em coerção e cuja exper­iên­cia espir­i­tu­al é ori­en­ta­da em direção a uma sal­vação pelas obras, acharão nat­ur­al agirem por um instin­to de preser­vação própria quan­do a mar­ca da besta for impos­ta.

E esta é a razão pela qual ela nos adver­tiu tão enfati­ca­mente con­tra qual­quer exer­cí­cio de dom­i­nação pelos líderes da igre­ja. A incli­nação para con­tro­lar out­ros é o princí­pio cen­tral do sis­tema papal. Aque­les que oper­am por esse princí­pio estão seguin­do os pas­sos de Roma e, por­tan­to, estão preparan­do a si mes­mo e aque­les a quem lid­er­am para aban­donarem os out­ros para sal­varem o próprio EU quan­do a mar­ca da besta for impos­ta.

Sendo assim, ape­sar dos inúmeros alarmes Protes­tantes sendo acer­tada­mente dis­para­dos para nos lem­brar de estar­mos aten­tos para o que o papa e o papa­do este­jam fazen­do, pen­so que seja apro­pri­a­do emi­tir um avi­so para prestar­mos atenção ao que eu e você este­jamos fazen­do, a menos que este­jamos bus­can­do inten­cional­mente, pela graça de Deus, lidar com graça e respeito e de for­ma não coer­ci­va uns com os out­ros, espe­cial­mente quan­do dis­cor­damos, e mais especi­fi­ca­mente quan­do acon­te­cer de estar­mos em uma posição de influên­cia e lid­er­ança. Enquan­to estiver­mos aten­tos ao Roman­is­mo lá fora, este­jamos tam­bém aler­tas quan­to ao Roman­is­mo aqui den­tro.

Artigo: Light Bearers - Ty Gibson
Tradução Livre: Cristãos Cansados

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