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Itunes

Com direção do brasileiro Fer­nan­do Meirelles, o filme Ensaio sobre Cegueira, basea­do no livro de mes­mo nome de José Sara­m­a­go, con­ta a história de uma epi­demia que deixa as pes­soas cegas, enx­er­gan­do ape­nas uma super­fí­cie bran­ca. Ela se man­i­fes­ta em um homem no trân­si­to e logo depois se alas­tra pelo país. Aos poucos, quase todos acabam cegos e colo­ca­dos em quar­ente­na. A tra­ma então segue a mul­her de um médi­co, que difer­ente do restante da pop­u­lação, não ficou cega. O foco do filme não é a causa ou cura da doença, mas a luta pela sobre­vivên­cia e a vol­ta aos instin­tos bási­cos de uma sociedade que perde tudo o que con­sid­era civ­i­liza­do.

O filme apre­sen­ta cenas bem fortes, onde os traços que nos tor­nam humanos são quase apa­ga­dos, e todos começam a agir feito ani­mais. As pes­soas na quar­ente­na se encon­tram em uma situ­ação deploráv­el, sem cuida­dos bási­cos de saúde, sem sanea­men­to, e pre­cisan­do brigar grotesca­mente pela pou­ca comi­da dis­tribuí­da. Cada um esquece de ser civ­i­liza­do, e bus­cam suprir ape­nas suas neces­si­dades indi­vid­u­ais, sem se pre­ocu­par com a sobre­vivên­cia cole­ti­va.0005 ensaio

Essa é uma leitu­ra muito triste da real­i­dade, pois em nos­sa sociedade mod­er­na, quan­tas vezes não nos sep­a­ramos das neces­si­dades encon­tradas ao nos­so redor. Na bus­ca por sat­is­faz­er nos­sas indi­vid­u­al­i­dades, nos­sos capri­chos e lux­os, pen­san­do em nós mes­mos, nos tor­namos cegos para a real­i­dade que se encon­tra lá fora, no out­ro.

Por out­ro lado, enx­erg­amos as pes­soas ape­nas pelo que elas podem pro­por­cionar para nós, e o bem que nos podem faz­er, sem de fato enx­ergá-las pelo que real­mente são, pes­soas. E após tan­to sofri­men­to e dor durante o filme, quan­do tudo o que é luxo é der­ruba­do, as pes­soas acabam achan­do uma har­mo­nia na sobre­vivên­cia, e se encon­tram con­ver­san­do, inter­agin­do uns com os out­ros como iguais, pois não podem mais ver as bar­reiras pre­con­ceitu­osas de classe, condição finan­ceira, cor ou raça.

No filme, a mul­her que enx­er­ga se tor­na tão inerte quan­to os que estão cegos. Ela não reage ao sofri­men­to que ocorre, bus­can­do ape­nas a preser­vação de si mes­ma e do mari­do, tor­nan­do-se tam­bém cega para o que os out­ros pre­cisam. É só mais para o fim que ela real­mente sai da ina­tivi­dade e aux­il­ia o próx­i­mo. A sociedade hoje em ger­al, está condi­ciona­da a uma cegueira muito pare­ci­da. Ao pres­en­cia­r­mos tan­ta mis­éria, tan­ta fal­ta de ajuste no mun­do, perdemos nos­sa sen­si­bil­i­dade, e pas­samos a enx­er­gar ape­nas o que quer­e­mos ver. O filme nos chama para enx­er­gar além dessa cegueira. De reavaliar o que real­mente impor­ta e resig­nificar aqui­lo que chamamos de civil­i­dade.

É pos­sív­el que ao escol­her­mos somente o que nos con­vém, e virar­mos o ros­to para a neces­si­dade alheia, bus­can­do ape­nas o mate­r­i­al e indi­vid­ual, nos tornemos tão cegos e ani­male­scos quan­to as  pes­soas do filme. A maior lição que podemos tirar desse filme ou livro é: ser cego não sig­nifi­ca ape­nas a fal­ta de visão. Muitas vezes, pode sig­nificar não enx­er­gar tão pro­fun­da­mente.

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