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Difer­ente da maio­r­ia dos filmes que vemos, Crash é, sem dúvi­da, pecu­liar. Seu roteiro não pos­sui uma tra­ma cen­tral, mas é frag­men­ta­do em várias histórias que acon­te­cem para­le­la­mente, sem nen­hu­ma lig­ação aparente, mas que vão se conectan­do no decor­rer da nar­ra­ti­va. Essas histórias se pas­sam em uma Los Ange­les pós-11 de setem­bro, onde a inse­gu­rança, o medo e a descon­fi­ança estão à flor da pele. O filme tra­bal­ha com a com­plex­i­dade da per­son­al­i­dade humana, explo­ran­do seus lim­ites, con­tradições e mudanças de ati­tudes depen­den­do de cada cenário.

A temáti­ca prin­ci­pal do filme é a respeito do pre­con­ceito ger­a­do pelo medo e pela inse­gu­rança do mun­do mod­er­no. Vemos por exem­p­lo uma per­son­agem que após sofr­er um assalto na rua, man­da tro­car as fechaduras de sua casa, mas entra em pâni­co quan­do desco­bre que o chaveiro é lati­no. Em deter­mi­na­do momen­to, um poli­cial abor­da um car­ro sus­peito, onde um dire­tor de TV, que é negro, comete uma peque­na infração. O poli­cial então repreende, mas comete abu­so de poder ao tirar proveito da esposa do dire­tor. Em out­ro momen­to do filme, o poli­cial aca­ba ten­do uma0004 crash mudança de com­por­ta­men­to ao encon­trar essa mes­ma mul­her debaixo de um car­ro em chamas, e arrisca a vida para salvá-la. São várias as cenas conexas que vão sur­preen­den­do quem assiste, e nos colo­can­do em cenários onde nos con­fronta­mos com nos­sos próprios pre­con­ceitos.

Por exem­p­lo, o par­ceiro daque­le poli­cial, repro­va a ati­tude de racis­mo dele con­tra o casal negro, demon­stran­do uma éti­ca cole­ti­va de tra­bal­ho. Só que no final, soz­in­ho, ele se encon­tra em uma situ­ação onde exerce um forte pre­con­ceito com um rapaz negro que parece por­tar uma arma, e ele ati­ra no rapaz, só pra desco­brir que o garo­to car­rega­va um obje­to inofen­si­vo. Ele aca­ba ferindo sua éti­ca indi­vid­ual, inclu­sive acober­tan­do o crime.

Todos nós temos nos­sos pre­con­ceitos, que traduzin­do, são con­ceitos tira­dos antes da hora, con­clusões ante­ci­padas ao resul­ta­do. Colo­can­do de for­ma mais sim­ples ain­da, não esper­amos algo acon­te­cer para definir­mos o que pen­samos sobre isso. Quem nun­ca? Rs. O fato é que vira e meche agi­mos de acor­do com a visão pré deter­mi­na­da que temos de um assun­to, e acabamos desco­brindo que as coisas não são como achá­va­mos que fos­se.

Das muitas lições que poderíamos tirar, a que quero destacar é que pre­cisamos desen­volver um sen­so críti­co ao invés de depen­der­mos ape­nas do sen­so comum. Gen­er­alizar fatos, ou gru­pos étni­cos, assim como estereóti­pos de pes­soas, é um grande cam­in­ho para o pre­con­ceito e para a exclusão. Por exem­p­lo, o sen­so comum diz que cer­tos reli­giosos usam a pre­gação para manip­u­lar e extorquir seus devo­tos, por tan­to, podemos ser lev­a­dos a gen­er­alizar isso para todo e qual­quer grupo reli­gioso, afir­man­do que todos eles estão envolvi­dos com des­on­esti­dade e men­ti­ra. Mas se usar­mos o sen­so críti­co indi­vid­ual para anal­is­ar­mos o dis­cur­so e o com­por­ta­men­to do grupo, e não do estereótipo, muitas vezes podemos acabar sendo sur­preen­di­dos.

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