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O livro “O Leão, a Feiti­ceira e o guar­da-roupas”, de C. S. Lewis, con­ta a história de 4 irmãos que vão morar com o tio em um casarão durante um perío­do de guer­ra na Inglater­ra. Em deter­mi­na­do momen­to, brin­can­do de esconde-esconde, Lúcia, a caçu­la do grupo se esconde em um guar­da-roupas, mas aci­den­tal­mente é trans­porta­da para um mun­do mági­co chama­do Nár­nia, cheio de neve, ani­mais falantes e criat­uras mág­i­cas. Após tomar chá e con­ver­sar com um fauno, ela retor­na à pas­sagem sec­re­ta e se vê de vol­ta no guar­da-roupas. Sua empol­gação desa­parece, porém, quan­do ela con­ta para seus irmãos e nen­hum deles acred­i­ta nela. E afi­nal quem pode culpá-los? É uma história e tan­to. Mas a coisa pio­ra ain­da mais quan­do Edmun­do, o irmão do meio, desco­bre a pas­sagem para a ter­ra de Nár­nia, e ain­da assim, diz aos irmãos que Lúcia está mentin­do.

Os mais vel­hos, Pedro e Suzana, resolvem bus­car a exper­iên­cia do tio, expli­can­do a pre­ocu­pação, pois Lúcia nun­ca havia feito isso. Acred­i­tam que, ou ela virou uma men­tirosa ou enlouque­ceu. Só0003 narnia1 que a respos­ta do tio sur­preende as cri­anças. Ele per­gun­ta quem é mais con­fiáv­el, Edmun­do ou Lúcia? Eles con­cor­dam que sem dúvi­da é Lúcia, mas não acred­i­tam que ela está mentin­do, ape­nas ficou doi­da. O tio nega a hipótese, pois lou­cu­ra é uma condição ger­al, e a sobrin­ha nun­ca apre­sen­tou tais sinais. E lem­bra a eles que existe uma ter­ceira pos­si­bil­i­dade. 1 – Ela não deve estar mentin­do, pois a exper­iên­cia con­tradiz essa opção. 2 – Não há boas razões para crer que ela está lou­ca. 3 – Logo, ela deve estar falan­do a ver­dade. E aí? A que con­clusão você chegaria?

É impor­tante lem­brar que em algum momen­to de nos­sas vidas, todos nós nos vemos na pele de Pedro e Suzana. Já ouvi­mos teste­munhos dos mais vari­a­dos, des­de vidas aliení­ge­nas a exper­iên­cias mís­ti­cas e reli­giosas. Mas e aí? A razão exige que sejamos sem­pre céti­cos? Pre­cisamos destacar que os dois estão em uma posição difí­cil. As evidên­cias que os fazem duvi­dar e as que os fazem acred­i­tar na irmã, são difer­entes. Não são opostas para se com­parar.

Con­tra Lúcia, pesa grande parte do que os dois con­hecem da real­i­dade. A exper­iên­cia diz que não exis­tem mun­dos mági­cos. Mas pesa tam­bém o fato de que a irmã nun­ca men­tiu antes. Se fos­se qual­quer out­ro, eles já teri­am descar­ta­do a história. A con­tra-evidên­cia neste caso, é o caráter do men­sageiro. Fora a história absur­da, eles não tem razão pra duvi­dar dela.

Se você acom­pan­hou o raciocínio até aqui, existe uma lição muito impor­tante a ser extraí­da dessa história. Ao se con­frontar com um teste­munho que você este­ja ten­ta­do a desa­cred­i­tar, e até mes­mo diante daqui­lo que con­sum­i­mos na cul­tura em ger­al, faça a si mes­mo as seguintes per­gun­tas: 1 – Como esse teste­munho ou história se encaixa no meu sis­tema ger­al de crenças fun­da­men­tais? 2 – Até que pon­to a teste­munha ou veícu­lo é con­fiáv­el, tan­to no ger­al quan­to nesse tema em especí­fi­co? Você não terá respostas nem úni­cas nem defin­i­ti­vas, mas terá uma grande fer­ra­men­ta para te aju­dar na decisão.

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